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Berendt / Feather et al. História do Jazz. Abril Cultural, p. 181
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Chick Corea (n.1941) > piano, teclados
Oriundo de uma família
musical, Armando Anthony Corea começou a tocar piano aos
quatro anos e desde cedo escutava tanto os mestres do jazz como
os mestres da música clássica. Iniciou sua carreira
tocando com as bandas de Mongo Santamaria, Willie Bobo (1962-1963)
e Blue Mitchell (1964-1966). Gravou seu primeiro disco como líder
em 1966. De 1968 a 1970 tocou com Miles
Davis, exatamente durante a célebre fase de transição
para o jazz-rock, participando dos discos Filles de Kilimanjaro,
In a Silent Way e Bitches
Brew. Isso sem dúvida contribuiu para tornar seu
nome mais conhecido. Ao deixar o grupo de Miles, Corea tocou por
um breve período com o grupo de vanguarda Circle,
formado por Anthony Braxton,
Dave Holland e Barry Altschul. Em
um dos primeiros discos de Corea para o selo ECM, intitulado A.R.C.,
de 1971, o grupo que toca é um trio: o Circle sem Braxton.
Depois do Circle, Corea formou um dos grupos mais influentes do
então emergente estilo fusion, o Return
to Forever, que teve diversas formações
entre 1971 e 1977, sempre com Stanley Clarke ao contrabaixo.
Entre meados dos
anos 70 e meados dos anos 80, Corea esteve envolvido em diversos
projetos diferentes: duos com o pianista Herbie
Hancock (1978) e com o vibrafonista Gary
Burton (1979), um quarteto acústico de jazz post-bop
(Three Quartets, de 1981, com Michael
Brecker, Eddie Gomez e Steve Gadd), gravações
com conjuntos grandes (The Leprechaun, de 1975, My Spanish
Heart, de 1976, e The Mad Hatter, de 1978), além
de uma turnê reagrupando o Return to Forever em 1983.
Em 1985, já no selo GRP, Corea formou um novo grupo de
fusion, a Elektric Band, e um pouco depois a Akoustic
Band. Em ambas as formações o contrabaixista
era o jovem e brilhante John Patitucci.
Nos anos 90, Corea
continuou produzindo uma obra diversificada, incluindo discos
solo, um tributo a Bud Powell (1996)
e um reencontro com Gary Burton (1997).
Em 1992 Corea fundou seu próprio selo, o Stretch, que depois
se tornaria uma subsidiária da Concord. Em 1998 formou
um novo grupo acústico, o Origin, que estreou no
clube Blue Note. O grupo conta com a presença de outro jovem
e talentoso contrabaixista, Avishai Cohen.
O estilo de Corea
é multifacetado, adaptando-se aos diferentes tipos de instrumento
que utiliza - piano acústico, piano elétrico, teclados
portáteis de tessitura reduzida, sintetizadores com muitos
recursos. Não obstante, podemos tentar identificar alguns
elementos predominantes. O fraseado de Corea é sempre nítido
e bem delineado, claramente focalizado, mesmo nas passagens mais
rápidas. Está literalmente repleto de síncopas,
mormente nas execuções em estilo mais fusion.
Também são características as progressões
cromáticas ascendentes e descendentes. Os improvisos de
Corea apresentam um fraseado complexo, possuindo uma verdadeira
estrutura interna. Embora capaz de tocar passagens suaves, Corea
em geral se revela um pianista de toque mais vigoroso do que um
Bill Evans, por exemplo - de quem
no entanto pode ser considerado um herdeiro no plano harmônico.
A técnica
pianística de Corea exibe uma notável independência
entre mão esquerda e direita, mas isso não exclui
o uso freqüente de oitavas paralelas. No plano harmônico,
não é raro encontrar quartas superpostas, bem como
acordes politonais, isto é, formados pela superposição
de dois acordes distintos. A ornamentação é
sempre bastante elaborada - mais um traço que o aproxima
de Evans. Uma boa introdução ao estilo de Corea
é o ensaio que a pianista e professora universitária
Monika Herzig publicou na Internet, intitulado Chick Corea
- A Style Analysis (Chick Corea - Uma análise estilística).
(Algumas das noções aqui expostas acham-se corroboradas
naquele ensaio; algumas outras foram por ele sugeridas, dívida
que com satisfação registro aqui.)
Chick Corea é,
sem dúvida, um dos mais versáteis e técnicos
pianistas da atualidade. Como se pode perceber pela discussão
acima, o acervo de técnicas que ele utiliza em suas execuções
denota um total domínio do instrumento. Além disso,
dono de vasta bagagem musical, Corea mantém-se aberto às
mais variadas influências, incluindo a música brasileira
e latina. Também fez da alternância entre o piano
acústico e os teclados eletrônicos um hábito
constante. Estas duas últimas características, convém
lembrar, valeram-lhe algumas críticas. No que se refere
ao repertório, cabe destacar a onipresente Spain,
tema composto em 1972 e que desde então vem reaparecendo
na carreira de Corea sob as mais diversas formas - piano solo,
grupos acústicos, grupos elétricos, big bands de
fusion, arranjos sinfônicos
- sem falar nas dezenas de versões feitas por outros músicos.
Numa tentativa de
fazer um balanço da carreira de Corea, duas constatações
de caráter geral são certas: primeiro, independente
do estilo que estiver adotando num dado momento, ele sempre se
cerca de músicos altamente competentes. Segundo, quer se
esteja junto com aqueles que preferem o seu lado mainstream, quer
com aqueles que preferem o lado fusion,
a obra de Chick Corea é tão extensa e bem desenvolvida
que inclui material mais do que suficiente para agradar fãs
de ambos os lados.
(V.A. Bezerra, 2001)

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